A velha aula de gramática

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A escrita surgiu como uma necessidade humana de se comunicar e, sobretudo, de perpetuar sua história para a posteridade. Pesquisadores dedicam-se ao estudo dos sítios arqueológicos nos quais as figuras rupestres narraram o cotidiano e as situações próprias de nossos ancestrais. Entender o passado é uma forma de evitar o erro…

A escrita é um fenômeno bastante moderno, se pensarmos no acesso à educação formal para a massa. O acesso à escola, no Brasil até o início do século XX, era restrito a quem obtinha poder aquisitivo e influência, certo? Imagine a época em que viveu Machado de Assis (mulato, em uma sociedade marcada pelos resquícios da era escravocrata, pobre, órfão, gago e epilético), em que cerca de 80% da população era analfabeta. Avancemos.

Evoluímos como uma sociedade marcada pela desigualdade intelectual. Basta que olhemos as disparidades de pensamento com relação à política, à educação ou a quaisquer temas polarizáveis. Corremos às ruas, às redes sociais! Travamos guerras intelectuais com citações de fulano, defendemos sicrano, veementemente, como inocente, afinal é tudo “intriga da oposição”, a velha e arguta teoria!

Chegamos à Era Cognitiva, à Era da Inteligência Artificial, acumulamos dados, informações, postamos, compartilhamos, comentamos. O tempo urge! A escrita vislumbrou a facilidade da economia linguística. Para dizer obrigada, bastam três consoantes “vlw”, para que sejamos irônicos à la Machado de Assis, basta um emoji com os olhinhos voltados para cima, ou um reles “joinha”, o “naum” do antigo MSN se transformou em “n”. Preguiça intelectual?

Pensar na escrita como uma forma antiquada, atualmente, de se comunicar é retroceder à Era do Neandertais, visto que para evitar o “textão”, fazemos um call pelo Skype. Tudo pela pressa. Não desejo nem me referir à perfeição, basta que escrevamos as palavras corretamente. Língua oral e língua escrita são as vertentes para o ato de se comunicar, há disparidades. Aprecio, aliás, o conceito de ser poliglota na própria língua, tudo é questão de se moldar ao interlocutor, ao canal e ao tipo de situação. Fórmula simples e eficaz.

Como revisora profissional, lido com as normas e a coerência da língua. Imaginem um lugar sem regras básicas, que dirá a língua?! Há uma harmonia belíssima quando as palavras são ditas e escritas de forma dicionarizada. Respeito e combato os preconceitos linguísticos, nada de segregação. Mas a regra é clara, Galvão!

A língua portuguesa, a última e bela flor do Lácio, é nossa pátria, é nossa forma de expressão. Aprendemos a amar, absorvemos o significado precioso de sentir saudades, existimos e nos comunicamos.

Vez ou outra surgem os equívocos, os absurdos, os que ignoram o acesso fácil e rápido a um dicionário virtual. Eis a razão de ser deste texto: deparei-me semana passada com uma palavra grafada corretamente, o absurdo se deu em razão de o significado, no contexto, referir-se a outra (nas aulas de gramática, aprendemos a existência de palavras homônimas homógrafas, homófonas e homônimas perfeitas), diferente da que estava diante de meus olhos atentos.

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Por um instante, a surpresa, o espanto, a indignação, o riso! ARRANHA-CÉUS fora grafado ARRANHÁSSEIS (2ª pessoa do plural do pretérito imperfeito do subjuntivo). Caiu em desuso a ponto de ser confundido com o termo usado para designar os prédios cujo topo parecem alcançar o céu, tocam-no levemente.

Aprendi ainda aos 12 anos com a professora de português que o uso do dicionário é imprescindível quando surgem as dúvidas, é uma forma de liberdade e um ato de coragem.

O pai dos inteligentes parece o santo graal neste tempo em que todos desejam ser redatores e alcançar o maior número de likes. Surge-me a pergunta: revisão? Para quê?

 

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Santo Graal

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A escrita, como a pintura, é construção íntima e solitária, passeamos por jardins secretos da alma, ainda que habitados por distintas versões de nós mesmos e do outro. Caminhamos, sedentos, enquanto urge o mundo a nossa volta. Encontramos nossa voz. O tempo trata de lapidá-la.

Ao jovem poeta, Rilke aconselha observar o entorno, rememorar a infância, fonte inesgotável para a alada imaginação “esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações” para fruir a escrita. A obra de arte nasce por necessidade, porque há uma voz a nos impelir, inaudível ao mundo. A arte é um exorcismo.

A voz ecoa. Aproprio-me dos conselhos de Rilke “Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: Sou mesmo forçado a escrever?”

A voz ecoa. Não há como retroceder. A voz é um universo povoado, embora solitário. Voz arquetípica. Silenciá-la significará atormentar-se e negar-se a si mesmo.

A voz ressoa. É preciso escrever para que não se enlouqueça. Observar os passantes, a natureza, o mundo que nos cerca é pesado demais. A arte é um exorcismo! As crises expostas nas mídias, no espelho, nas conversas fortuitas, no trabalho, nos textos escritos a sangue – nas redes sociais – funcionam como insight em dia de chuva invernal. Passamos tempo demais impelidos em chegar.

A escrita, como a pintura, é fatia do tempo. É lembrança. Desejo. É mergulho em alma alheia. Quem escreve não é juiz, é observador perspicaz, curioso, de ouvidos de tuberculoso, memória elefantina, olhos aquilinos, coração de estudante… quem escreve exorciza demônios alheios, trata das dores coletivas, inaudíveis, inconfessáveis.

Há jargões da moda. Há gurus da moda. Há palavras da moda. A crise seria a moda do momento? A arte é um exorcismo!

O processo de escrita perpassa a última Cruzada; desvendamos enigmas, reunimos e apropriamo-nos dos despojos, vencemos obstáculos e ativamos os predicados elencados há pouco, sobretudo o da memória elefantina “O homem penitente passará! O homem penitente passará!” em voz ficcional do arqueólogo e aventureiro icônico das sessões vespertinas, cujo som perscruta os labirintos da memória: só o homem penitente passará, porque se curva diante de Deus, curva-se diante do saber para alcançar o Santo Graal.

A escrita é terapia, é renovo, é voz polifônica. “Sou mesmo forçada a escrever?” A escrita é minha forma de construir o mundo, de pausar o tempo, de sanar as mazelas alheias. A escrita é elixir, é Santo Graal, é perenidade. A escrita é a forma de dizer que não me basto a mim mesma. Escrita é estrada pela qual importa caminhar.

A cada um de nós é dada a oportunidade de encontrar o motivo condutor da existência, nosso leitmotiv. Acaso, é possível viver, passar pelo mundo e não existir? Não encontrar significado para a caminhada solitária da vida?

Reifique sua essência! Ecoe Rilke dentro de si, complete as indagações “Investigue o motivo que o manda … (dançar, cantar, compor, pintar, mudar?); examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado … (dançar, cantar, compor, pintar, mudar?). Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: Sou mesmo forçado a … (dançar, cantar, compor, pintar, mudar?)?”

É preciso vasculhar os jardins secretos da alma, atentar-se à própria voz, aumente os decibéis! Diria ainda: saiamos do jardim secreto de nós mesmos, esse falso paraíso, siga o conselho de Melanie Klein “Quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso”.

Distopia minha

O-Transumanismo-e-a-revisão-do-conceito-de-distopia

Passeamos desnudos
pelo mundo dos sonhos
Caminhamos tontamente
à vista daqueles a quem
não queremos ver.
 
somos seres oníricos
vagando distópicos
pelo topos da realidade

Gostávamos é de viver
na utopia de Morus
onde somos quem somos:
despidos, despertos,
sem muros
erigidos por medos
e injustiças
em que alcançamos,
tateamos:
o Sumo Bem

Vox populi, vox Dei?

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 “Porém eles continuaram a gritar bem alto, pedindo que Jesus fosse crucificado; e a gritaria deles venceu. Pilatos condenou Jesus à morte, como pediam. E soltou o homem que eles queriam — aquele que havia sido preso por causa de revolta e de assassinato. E entregou Jesus para fazerem com ele o que quisessem”.
(Lucas 23.23-25)

Recorrente é o jargão no qual se encaixa o excerto destacado acima: “a voz do povo é a voz de Deus”. Segundo uma corrente da Sociologia, tendemos a unir nossa voz à da multidão. Talvez, por vergonha de ser o galo solitário a tecer a manhã. Ou ainda, por preguiça social de se destacar como ser único, ímpar, pensante e imune à força da urbe.

Atribui-se a Alcuíno de Iorque, em carta a Carlos Magno, 798 d.C., a máxima citada acima em contexto:

“Nec audiendi qui solent dicere, vox populi, vox Dei, quum tumultuositas vulgi semper insaniae proxima sit”.
(E essas pessoas não devem ser ouvidas por quem continua dizendo que a voz do povo é a voz de Deus, já que a devassidão da multidão sempre está muito próxima da loucura.)

Loucuras à parte, seguimos nossos dias como seres a viver, tontamente, o curso como as personagens de Eurípedes: comuns, excluídas e engaioladas na celeuma da kratós brasileira. Perdemos nossa alma à medida que nos curvamos como os vassalos de impérios antigos. Permanecemos cegos e surdos-mudos diante da barbárie, da crueza humana. Semelhante à multidão, vociferamos pela morte de Cristo, quando, emudecidos, não lutamos contra as injustiças pelas quais Jesus chorou enquanto contemplava Jerusalém.

Ainda não conseguimos descobrir “o que é preciso para conseguir a paz” (Lucas 19.42a), qual a via crucis lúdica, na qual é possível aprender a caminhar com visão 180o diferente da narcísica. O id freudiano é sobreposto, porque cedemos às vontades primitivas, voz que há muito tentaríamos calar. Perdemos nossa alma à medida que cedemos, aceitamos e damos de ombro diante dos usos e costumes a que nos colocamos. Tememos o ridículo, tememos expor nossa fé ante a vox populi. Apavoramo-nos com a ideia da solidão. Não é mais possível medir o ser em detrimento do ter.

Basta que olhemos ao nosso derredor para comprovar: o sermão da montanha está ultrapassado. Cristo fora um sábio a frente de seu tempo, o herege judaico, cujas palavras, embora permaneçam, enfraquecem na mesma proporção em que há um declive do Cristianismo. O galo continua a cantar, ainda que o neguemos. Os remanescentes permanecem. A fé permanece. Onde? Em mim! E naqueles em que firme é o desejo de ser, genuinamente, uma figura mimética de Cristo, um imitador, um seguidor, um servidor…

A hagiografia de Cristo possui quatro versões canonizadas, três das quais compõem os Evangelhos sinópticos. Narram consoante aos três anos de seu ministério, embora dois deles iniciem com o prenúncio de sua natividade, cujos sinais eram conhecidos por quem o aguardava. Ainda o aguardamos.

O trecho destacado é a concretização das palavras proféticas de Isaías 53.7-9: “Ele foi maltratado, mas aguentou tudo humildemente e não disse uma só palavra. Ficou calado como um cordeiro que vai ser morto, como uma ovelha quando cortam a sua lã. Foi preso, condenado e levado para ser morto, e ninguém se importou com o que ia acontecer com ele”, nem mesmo seus discípulos. O Cristo histórico e messiânico personifica o amor ágape, testifica a veracidade das epístolas paulinas, as quais perpassavam um tempo de crise política, social, ética e de fé como o nosso: corrupção, falácias, latinização, artimanhas políticas, acordos, declínio do clero, esfriamento do amor.

O passado está a nos ensinar, custosamente, não conseguimos aprender. O erro é cíclico. Oscilamos. Caímos. Impérios são destruídos. Mártires, assassinados. Pobres, explorados. Ainda assim é possível sussurrar: Jesus, “lembre de mim quando o senhor vier como Rei!”.

Soldo: do sal ao sol

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Segundo a segundo
pesadamente
tilinta o ponteiro
do trabalho
conforme a marcha:
proletariado
(massa de manobra)
cuja alma
abandonada
às visualizações
da vida virtual
correm ao trabalho
para consumir-se
horas a fio
 
para consumir
as liquidações
da vida fugaz
 
a marcha entoa
o cântico escarlate
das revoluções
crise existencial:
política, amor,
economia

Janela indiscreta

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Sibila-me aos ouvidos, a voz freudiana iminente à tecnologia:
psicopatias, fanatismos, fobias expostas como peças íntimas nas vitrines.
A vida transmutou-se para a inversão humana:
expomos aquilo, certamente, oculto em tempos de outrora,
em consultórios, oratórios e confessionários…
Redes sociais: espelhos narcísicos

Empurramos, intermitentemente, a pedra de Sísifo rede adentro!
Onde andaremos?

Puerícia

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Submergida em pensamentos, deleitava-se no gozo das rememorações… Penetrava-lhe com tal languidez, a ponto de abduzi-la às sensações voluptuosas. Cultivava no recôndito: a esperança. Porquanto a torrente de paixão ainda não captara suas entranhas a ponto de cativá-la.

Submergida, sim, porventura o cenário das sensações era inóspito de dogmas e de cadeias nas quais poderiam encarcerá-la.

A feminilidade pulsava-lhe corpo a dentro.